Todos os invernos, Dona Célia, uma viúva de 72 anos, pendurava um velho casaco azul na cerca de sua casa. Ela fez isso pela primeira vez em 2015, quando viu um homem tremendo de frio revirando o lixo.
— Tome isto — disse ela, estendendo-lhe o casaco que pertencera ao seu falecido marido. O homem caiu em lágrimas:
— Amanhã minha filha vai se casar. Eu não queria que ela me visse assim... quebrado.
Desde então, a cada inverno, Dona Célia colocava casacos na cerca com um bilhete:
“Leve, é seu. Sem perguntas.”
Eram roupas usadas: casacos antigos do seu filho Marcelo ou até mesmo o seu próprio casaco de lã.
Os vizinhos, no início, ficaram surpresos.
— Vão roubar de você! — alertou o senhor Batista, um vereador local.
Mas Dona Célia não parava.
Numa manhã gelada, um adolescente pegou um casaco de náilon e, no dia seguinte, voltou e deixou um par de luvas no bolso, com uma nota:
“Para o próximo.”
Assim nasceu uma corrente de bondade.
Uma mãe solteira pegou um cachecol e deixou meias infantis.
Um carregador levou um gorro e, em troca, trouxe cinco cobertores velhos.
Em 2020, a cerca parecia uma pequena loja comunitária: havia sapatos, blusas de lã e até um vestido de noiva com a mensagem:
“Usei só uma vez. Que ele encontre um novo amor.”
Em janeiro do ano passado, Dona Célia encontrou na porta de casa um desenho feito por uma criança: uma avó abraçando um casaco, com a frase:
“Obrigado. A mamãe pegou o rosa. Agora não sente frio quando me leva para a escola.”
Em outubro, Dona Célia faleceu. Seu filho Marcelo foi recolher os casacos, mas encontrou a cerca cheia novamente: um casaco de bombeiro, um jaleco de médico, uma saia de tule.
No lugar do cartaz da mãe, havia outro, com uma nova letra, mas a mesma mensagem:
“Leve, é seu. Sem perguntas.”
Hoje de manhã, um homem de terno parou diante da cerca. Olhou atentamente para o velho casaco azul — o mesmo que deu início a tudo.
Vestiu-o e ajustou as mangas.
Mais tarde, uma garçonete notou que, no crachá dele, estava escrito:
“Gerente.”
Ele deixou um bilhete no guardanapo:
“Tome. Passe adiante.”
E uma gorjeta de cem reais.
Essa história nos lembra que a bondade se multiplica... e sempre volta para aqueles que têm coragem de abrir o coração.