Ele caiu do andar mais alto da beliche. Os ossinhos frágeis de seu crânio chocaram contra o chão duro. No desespero, a mãe correu com a criança desacordada para o hospital. Mas logo o médico lhe deu a notícia que nenhuma mãe deseja receber. Seu filho não tem cura mais. Ele vai viver três meses apenas. A mãe desabou em lágrimas, implorando ao médico:
— Por favor... diga que ainda há uma solução!
O médico então respondeu com calma:
— Há duas possíveis soluções. A primeira é o doutor Affonso. O hospital dele é o único capaz de realizar essa cirurgia. Mas é particular… e nem se você vender tudo o que tem consegue pagar metade do valor. Fora isso, a única solução seria um milagre de Deus.
A mulher voltou pra casa arrasada, mas determinada. Plantou os joelhos no chão e, com a alma em chamas, se ajoelhou.
— Senhor, o Senhor sabe que eu não tenho como pagar o tratamento do meu filho… Mas ainda há uma solução. Se for da tua vontade, move a tua mão poderosa.
Ela orou todos os dias. Sempre com a mesma fé. Sempre com o mesmo clamor.
Mas o tempo passou. completou os três meses e nenhum milagre havia acontecido. O menino definhava, e a mãe, já em desespero, chorava, correndo de um lado para o outro dentro de casa, implorando. O marido tentava trazê-la de volta à razão:
— Calma, mulher… O que não tem jeito, não tem jeito…
Mas ela não parou. Naquele dia, orou sem cessar. e orou… até o anoitecer.
Foi quando a tempestade chegou. A estrada em frente à casa ficou completamente alagada. O barro cobria tudo.
De repente, alguém bateu à porta.
Um homem. Encharcado. Sujo de lama. Tremendo de frio. Ele apenas pediu:
— Água… por favor…
A mulher, mesmo com os olhos cheios de lágrimas. Deu água com gelo. Pediu que entrasse. E serviu jantar para o Forasteiro.
Durante o jantar, o homem apontou para o quarto:
— Quem é aquele garotinho dormindo?
A mulher suspirou fundo.
— É meu filho. Caiu da cama… e agora tá assim. Os médicos disseram que ele só tem mais uns dias de vida. A única chance seria uma cirurgia com o doutor Affonso. Mas não tenho como pagar. Então... eu só oro. Oro todos os dias por um milagre.
O homem parou de mastigar. E Olhou fixo nos olhos dela.
— Enxugue suas lágrimas, mulher.
Aquela voz tinha uma firmeza diferente. Quase divina.
— Eu estava indo pra faculdade dar aula de medicina. Todos os dias faço esse caminho. Mas hoje... com essa chuva, meu carro atolou bem ali, na porta da sua casa. Questionei a Deus porque ele fez isso comigo, mas agora eu entendi tudo.
— Não será um mal se meus alunos ficarem um dia sem aula.
Fez uma pausa, apertou firme a mão dela e concluiu:
— prazer. meu nome é Afonso. E vou operar seu filho. Aqui mesmo.
A cirurgia foi um sucesso.
Muitas vezes na vida, esperamos ver um anjo descer do céu para realizar o milagre. Mas nem sempre Deus trabalha assim. Às vezes ele permite que o carro atole, para que o milagre seja realizado.
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