terça-feira, 6 de janeiro de 2026

O Vazio das Mãos Cheias

 O Vazio das Mãos Cheias

Pare por um instante e olhe ao seu redor. Olhe para as paredes que te cercam, para o carro na garagem, para o celular em suas mãos e para o terreno que você demarcou como seu. Agora, feche os olhos e sinta o pulsar do seu coração. Perceba que, enquanto esse pulsar existir, você usa essas coisas, mas você não é essas coisas.

Em 2026, o mundo corre cada vez mais rápido, mas a verdade ancestral continua a mesma: daqui a pouco, você vai partir.

Não é uma sentença de medo, mas um convite à liberdade. Imagine o momento da sua partida como o atravessar de um portal. Nesse portal, a alfândega da vida não permite bagagens.

Sua roupa, escolhida com tanto cuidado, será deixada para trás como uma casca vazia.

Seu carro, que te levou a tantos lugares, estacionará pela última vez.

Sua casa, cenário de tantos sonhos, acolherá novos passos que não os seus.

Seus bens, acumulados com o suor de tantos dias, mudarão de nome e de dono.

Tudo fica.

A grande ironia da existência é que passamos a vida inteira fechando as mãos para segurar o que é efêmero, enquanto o que é eterno só pode ser cultivado de mãos abertas.

Se tudo o que é visível vai ficar, o que você está levando agora, dentro de si? No fim, você não levará o que guardou no banco, mas o que guardou na alma. Não levará o terreno que cercou, mas o espaço que você ocupou no coração de alguém.

O que se leva desta vida é o amor que foi dado sem medida, o perdão que libertou o outro (e a si mesmo), o brilho nos olhos diante de um pôr do sol e a paz de ter sido alguém que, mesmo sabendo que ia partir, decidiu plantar flores que não verá florescer.

Que essa consciência da finitude não te traga tristeza, mas uma urgência serena. A urgência de abraçar hoje, de dizer "eu te amo" agora, de ser generoso com o que você tem, sabendo que você é apenas o guardião temporário desses bens.

No último suspiro, não sentiremos falta do que acumulamos, mas do tempo que não usamos para simplesmente ser.

Desaperte os nós. Alivie o peso. O que é realmente seu, ninguém vê, e é a única coisa que atravessa o portal com você.

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